
E até que foi engraçado reviver alguns momentos, mesmo aqueles que me fizeram deitar muitas lágrimas e me trouxeram alguns pesares, e outros tantos que me deram enormes alegrias, mas tudo isto são coisas da vida, ela é feita de tudo um pouco, e é assim que crescemos e aprendemos a viver.
Lembrei de coisas que pensei já estarem no passado bem esquecidas, tais como quando tinha os meus 5 anos e estava na escola, onde conheci o meu primeiro e grande amigo, era um menino tal como eu, metido para si mesmo, mas muito doente, creio que tinha leucemia, digo isto porque me lembro dele sem qualquer cabelo, sempre com um gorro na cabeça e pela sua fragilidade, lembro que era gozado por muitos outros, bem como também me lembro de ser eu o único que sempre estava a seu lado, e que acabava por ser gozado também por estar sempre tentando protege-lo, lembro que no recreio nos sentávamos nas escadas da entrada para a escola e ali ficávamos até chegar a hora de entrar, outra coisa que também me lembro é da minha professora, não do seu rosto, mas da maneira como nos tratava, era um doce de senhora, sempre compreensiva e amiga, lembro ainda do dia em que escorreguei no chão encerado da sala de aula e bati com a cabeça numa das carteiras, naquela altura acho que perdi os sentidos, pois de mais nada me lembro, só de no mesmo dia estar a tomar um galão com meus pais no hospital, onde me fizeram uns exames que na altura não sabia o que eram, recordo que mais tarde meus pais ficaram a saber que eu sofria de disritmia cerebral, algo que para mim não soava a nada apenas algo que tinha mas não sabia o quê em concreto e quase nem sabia pronunciar, enfim, coisas da vida.
Lembro ainda dos maravilhosos passeios que fazia com meus pais em Moçambique, das idas à praia, de correr atrás dos caranguejos, de andar descalço e minha mãe dizer calça-te que ainda te magoas, e eu fazer ouvidos moucos, até que um dia pisei algo e fiquei cheio de picos nos pés, lembro da maldita hora em que estive chorando e berrando enquanto minha mãe tirava os picos dos pés e os desinfectava, como também me lembro que de nada me serviu os picos nos pés, nem a dor causada pelos mesmos, pois voltei a fazer o mesmo, aliás ainda hoje o faço, adoro andar descalço, nossa detesto algo me apertando o pé, chego mesmo por vezes a sair calçado de casa e acabar descalço com os sapatos, ou sandálias nas mãos.
Ahhhh lembro tão bem o Antoninho, um moço que trabalhava lá em casa, nossa que saudade, como eu era hahaha, muito brincava eu com ele e a Santa paciência que ele tinha comigo, as maldades que eu fazia com ele, as partidas e as palmadas e castigos que minha mãe me dava pelas coisas que fazia de mal com ele, e ele sempre me perdoava, nossa era um Santo, sim porque para me aturar era preciso paciência de santo e ele tinha.

Enfim depois foram tantas as coisas que aconteceram que pouco ficou na memória, sei que viemos para Lisboa pois os médicos disseram aos meus pais que seria bom tirarem umas férias para nos refazermos todos do acontecido e assim aproveitar-mos e estarmos com a restante família e assim foi, mal sabia eu que não mais voltaria a ver a terra que me viu nascer.
Mais tarde e chegados a Portugal fomos passar uns dias ao Algarve, mal sabia eu que seria aí após eu completar os meus 7 anos que meus pais me dariam a noticia que não podíamos voltar a Moçambique, mas assim foi, dali fomos viver para a Costa da Caparica numa casa de uma tia minha e cerca de um ano depois fomos viver para São Pedro do Estoril, lugares que embora bonitos por terem a praia tão perto não significavam nada para mim, mas era a vida que andava para a frente e nós com ela íamos andando.
Mas nem tudo foi triste nesta época, muito pelo contrário, apesar da minha saúde não ser das melhores, o meu grande sonho ia tornar-se realidade e assim foi a 24 de Março de 1975 nascia a minha irmã, um ser que eu havia pedido tanto a Jesus, pois era assim que eu era, não era de falar com Santos, nem de ir à missa, foi educado a fazer apenas aquilo que sentia e assim foi, sempre falava com Jesus pedindo uma irmã, e digo irmã, não era um irmão, tinha de ser uma irmã, minha mãe sempre me dizia e se for um irmão, e eu respondia, pode ser também, mas vai ser uma irmã, e assim foi, lembro nesse mesmo dia fomos para o Vila Nova de Gaia e ficamos em casa de uns amigos que também haviam retornado de Africa e que moravam ali, minha irmã nascia então nesse lindo dia, digo melhor nessa noite, sim pois não fomos antes, minha mãe sempre insistiu em apenas ir no dia, pois tinham de trabalhar, e assim foi após um dia de viagem chegamos e à noitinha às 21 horas menos 10 minutos nascia uma linda e rechonchuda menina, com muito cabelo, preto e todo em pé, era assim minha irmã em bebé (a minha Tin Tin ou a chinoca pois tinha os olhos como os da minha mãe em bico, haahah), lembro que naquela mesma noite a fomos ver, eu e meu pai, entrámos no quarto e lá fomos ver aquela “coisa” linda, mas segundo diz minha mãe eu só as fui ver mesmo depois de entrar no quarto e olhar para um crucifixo que ali tinham e agradecer, com as seguintes palavras, e sito minha mãe, obrigado Jesus por me dares uma irmã, disso não me lembro, mas minha mãe diz que assim foi, lembro de correr para vê-la e lembro do carrinho que recebi de minha mãe nesse dia, era um carrinho que eu há muito eu queria, um mini (ainda o tenho, estou a vê-lo neste exacto momento ali em cima daquela prateleira junto com uns outros de estimação), mas como dizia que há muito eu queria, mas minha mãe me dizia que não dava para comprar tudo o que eu queria e qual foi a minha surpresa quando o recebi naquele maravilhoso dia, nossa duas coisas que muito desejava estavam ali.
Bem e assim foi, depois foi o regressar a São Pedro do Estoril, onde fui um menino como tantos outros, ia à escola, não era um grande aluno, mas um aluno que estava sempre com muita atenção, brincava com todos, mas mais uma vez ali encontrei um outro amigo que era afastado dos outros por ser gordinho (algo que sou actualmente, hahahah), fiz uma grande amizade com ele e todos os dias íamos juntos para a escola, brincávamos tal como todos os outros putos da nossa idade, lembro de brincar a fazer de conta que ia a conduzir um carro, sabem?, ir a correr com as mãos estendidas a fazer de conta que pegava no volante e a fazer o som do carro, até fazia a buzina hahahaha, lembro de uma traquinice que muitos ainda fazem hoje e que irrita muita gente, tocar nas campainhas das casa s e fugir, nossa era tocar e … “pernas para que te quero” ahahhaha
O tempo passou normalmente e dois anos depois meus pais tiveram de mudar tudo novamente por causa do trabalho e foi aí que fomos viver para os Açores, e com essa mudança chegavam também algumas alegrias e tormentas, corria o ano de 1977 e em Outubro começavam as aulas, então foi nessa altura que viemos, lembro que tive muita dificuldade em me adaptar a um meio tão fechado como aquele, onde o pessoal do continente era mal visto, nunca percebi porquê, mas era assim naquele tempo, para meus pais não correu mal, mas para mim, lembro de ser escorraçado pelos meus colegas de escola, de não ter amizades, lembro ainda de me começar a fechar mais em mim, bem como meus problemas de saúde piorarem, foi aí que por força das circunstancias tive de ir a Lisboa fazer exames, pois tinha alturas em que simplesmente estava apenas de corpo presente, o espírito nem sei onde andava, lembro de ter ataques estranhos e de desmaiar, foi aí, em Lisboa com minha mãe e irmã que após muitos exames suspeitaram que sofria de epilepsia, lembro que na altura era um bicho de sete cabeças, todos me olhavam de lado e eu sofria com isso, no entanto esforçava-me por fazer amigos e lá acabei por ter alguns colegas, mas que tanto vinham como logo iam, mas a saúde piorou e além disso os meus nervos estavam um autentico desastre, eu acabava de descobrir que meu pai traia a minha mãe com uma mulher que ele havia trazido de Lisboa, era uma senhora que trabalhava no supermercado mesmo por baixo onde morávamos, ou seja no prédio onde morávamos em São Pedro do Estoril. Lembro que fui eu que disse à minha mãe, embora ela já desconfiasse ou até mesmo soubesse algo, não sabia quem era a tal mulher, que para mim, naquela altura, era uma “inimiga”, lembro ainda da amarga separação, embora minha mãe sempre tivesse feito para que todos fossemos amigos, meu pai não o fez, e isso fez com que tudo em mim piorasse ao ver o sofrimento não só de minha mãe mas também de minha irmã, que junto com o meu acabou por fazer com que minha saúde ficasse num frangalho, mas que fazer?, seguir em frente era o caminho e assim tentei fazer, mas a saúde não o permitiu, tive de voltar a Lisboa para fazer novos exames e nessa altura em 1983 os médicos aconselharam a minha mãe a ir comigo a um dos 3 maiores centros médicos do mundo, ou seja Estados Unidos, Inglaterra ou Africa do Sul para fazerem exames que na altura ainda não se faziam em Portugal, claro está era uma altura má financeiramente pois minha mãe estava desempregada na altura, mas lá se virou e escolheu Africa do Sul, mas só dava para ir eu, pois não havia dinheiro para irmos todos e assim fui a Africa do Sul, onde esperavam por mim os meus padrinhos que me receberam de braços abertos, o tempo passou e os exames foram todos feitos bem como tratamentos e lá voltei para junto de minha mãe e irmã.

Nessa altura já havia tido os meus primeiros amores, que haviam sido uma desilusão, mas não me fiquei por aí e continuei, vivendo, amando, caindo, levantando, tornando a cair e levantando novamente.
Chegava o ano de 1989 e eu realizava outro sonho, sair dos Açores e regressar a Lisboa, e assim foi, foi algo duro deixar a minha mãe e irmã para trás e ir para Lisboa viver sozinho, se bem que podia ter ido viver com familiares, mas não quis, era o meu grito do Ipiranga, naquela altura tomava muita medicação, ora para a epilepsia ora para os nervos que eram uma desgraça, ora para dormir e tudo isto medicado pelos médicos do Hospital de Santa Maria, cheguei mesmo a passar por um médico psiquiatra no Júlio de Matos, mas nunca e graças a Deus, digo mesmo nunca precisei de algo mais, tal como ser internado, mas brinco com isso tudo, pois certo dia fui a uma consulta no Júlio de Matos e o médico apenas passou uma carta para a minha médica do Santa Maria, carta essa que eu abri, claro está ahhaah, e qual não foi o meu espanto, a carta estava em branco, era apenas um papel em branco assinado, nossa cheguei à minha medica no Santa Maria e disse-lhe, Doutora já tenho carta branca, nem no Hospital dos “malucos” me querem hahah ao que ela se riu e mais ainda ao ver aquele papel em branco assinado pelo médico, ainda hoje guardo essa carta em branco desse médico do Júlio de Matos e muitas são as vezes que brinco com isso.

Bem o tempo passou e eu trabalhava e tentava estabelecer-me melhor para conseguir voltar a estudar, aproveitando para viver a vida ao máximo, saia todos os dias à noite, fazia noitadas percorrendo todos os cantos e recantos de Lisboa e não só, passava os finais de semana sempre que podia e tinha dinheiro suficiente em qualquer outro lugar, enfim vivi tudo a que tinha direito cometendo loucuras umas atrás das outras das quais nenhuma me arrependo. Fiz asneiras das grandes, cometi loucuras mesmo que nem me atrevo a contar pelo menos agora, mas vivi e amei todos os momentos até os amargos, acreditem, não me arrendo de nada nesta vida, tudo o que fiz até agora de bom, ou de mau, fi-lo, o bem, recebi de volta, o mal tive o troco, paguei o que tinha para pagar e assim continuo pensando e vivendo.



Ahhhh dos grandes amores que vivi devo ainda dizer que fui um pouco “internacional”, meu primeiro amor foi português, os outros que se seguiram, e foram tantos, foram espanhóis, italianos, franceses e suíços, amores esses que deixaram lindas e maravilhosas recordações, tive de tudo um pouco, tive ainda “amores e paixões” de um dia, de semanas, de meses vividos intensamente, ou loucamente, dos chamados amores de um dia, ficaram as recordações de um dia lindo maravilhosamente passado, dos amores de semanas ficaram intensos momentos, loucamente vividos, dos amores que duraram mais, ficaram além dos dias, semanas e meses, momentos loucos, ficaram também as fotos, as cartas, os postais, os presentes trocados, alguns desses guardados quase que religiosamente numa caixinha que está sempre junto de mim no meu quarto, mas esses amores não se ficaram no passado, alguns foram vividos há pouco tempo, creio que um dia, talvez daqui a muitos anos e muitos anos, assim espero, alguém abra essa caixa e veja a suas belezas que não só guardei mas irei guardando ao longo de mais anos que viva.
Muito, mas mesmo muito mais podia contar-vos, mas fica para uma outra vês, quem sabe, entretanto a vida continua e mais amores e desamores virão, alegrias, tristezas e conquistas virão, mas eu, eu estou aqui de pedra e cal, pronto para o que der e vier, vivendo, amando e aprendendo mais e mais a cada dia que passa.
Beijos em vossos corações deste LOUCO FELIZ, para todos que por aqui passam, que deixam um pouco de si e levam um pouco de mim.
Alvaro Gonçalves
P.S. : Se não nos virmos mais aqui no Blog até ao Natal aqui fica desde já o meu desejo de umas boas festas e que NATAL seja todos os dias de nossas vidas e que o ano que está prestes a chegar nos traga tudo que mais precisamos.